Fungo de The Last of Us é real, mas será que ele poderia causar uma pandemia?

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 19 de Janeiro de 2023 às 16h48

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Você que está de olho na cultura pop, mais especificamente no mundo das séries, deve ter acompanhado o primeiro episódio de The Last of Us, obra pós-apocalíptica baseada no jogo homônimo. Nela, acompanhamos a jornada dos protagonistas pelo mundo devastado por uma pandemia incomum — a de um fungo, o cordíceps, que invade o hospedeiro, utiliza substâncias psicodélicas para controlá-lo e usa o corpo para se reproduzir. O mais assustador de tudo? Ele é real.

Os próprios criadores da história original, Neil Druckmann e Bruce Straley, dizem ter se inspirado no documentário Planeta Terra, de 2006, narrado originalmente pelo ambientalista e divulgador científico Sir David Attenborough. Nele, podemos ver como funciona a infecção de Ophiocordyceps em insetos, ocorrência que transforma os pequenos bichos em verdadeiros zumbis, corpos parasitados que perdem o controle de si.

Fungos muito, muito reais

O nome de fungo zumbi não é à toa, já que ele consegue usar formigas, por exemplo, como verdadeiras marionetes. Na maioria das vezes, o hospedeiro é levado até as áreas mais altas possíveis, como o topo de uma planta, onde o fungo desabrocha do corpo e libera os esporos fúngicos, cobrindo a maior extensão que conseguir para parasitar mais caminhantes desavisados. Estudos mais profundos destes seres e suas infecções, inclusive, nos levaram a mudar a terminologia de Cordyceps para Ophiocordyceps.

A sequência do prólogo de The Last of Us, inclusive, faz um excelente trabalho de resumir os perigos dos fungos e as condições para poderem invadir nossos corpos — um lembrete do porquê não precisamos nos preocupar com isso de imediato, mas nos planejar para o futuro. Nossos corpos são quentes demais, e fungos não sobrevivem em organismos acima de 35 °C, mas, nas palavras do Dr. Newman (John Hannah), "e se o planeta ficar só um pouquinho mais quente? Agora, há uma razão para a evolução".

Isso, na verdade, já foi observado na natureza, quando o fungo Candida auris, anteriormente apenas uma criatura saprófita que vivia em pântanos, começou a infectar humanos. Os cientistas acreditam que isso tenha acontecido por conta do aquecimento global, que forçou a C. auris a se adaptar a temperaturas mais quentes, podendo então invadir os corpos de aves.

Nesse campo intermediário, houve tempo para se adaptarem ainda melhor à temperatura dos mamíferos e criar maneiras de contornar nosso sistema imune: bastou tolerar o calor das nossas partes corporais mais frias. A infecção por esse fungo pode ser assintomática, mas em alguns casos, também pode ser fatal, causando febre, calafrios e dores intensas. Já outros fungos podem causar sintomas ainda mais aterrorizantes.

Fungos do passado e do futuro

O Claviceps purpurea, por exemplo, conhecido como esporão-do-centeio, causa ergotismo convulsivo, condição em que o doente pode ter convulsões que duram horas, além de psicose, alucinações e mania. Acredita-se que muitos bruxos e bruxas condenados no Tribunal de Salem pudessem ter sofrido dessa infecção, cujos sintomas teriam sido assustadores às pessoas da época.

Uma combinação da C. auris, C. purpurea e do Ophiocordyceps poderia resultar em um terrível fungo semelhante à pandemia fictícia de The Last of Us, mas a ameaça mais perigosa dessas criaturas à qual estamos submetidos atualmente é aos nossos estoques de alimento, que podem mofar e sofrer todo tipo de infecção fúngica, inutilizando o conteúdo para consumo. Atualmente, fungos destroem até 30% de todos os produtos advindos de plantações.

Como não sabemos como os fungos se adaptarão ao aquecimento global — isto é, se não perecerem —, a ocorrência de uma futura pandemia segue sendo uma incógnita, mas alguns cientistas já urgem que cuidemos melhor do planeta, evitando a necessidade adaptativa dessas e de outras criaturas. Ninguém quer ter de evitar zumbis proliferadores de fungos em um mundo completamente insalubre, não é?

Fonte: IFLScience