Como vamos identificar a próxima pandemia?

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 03 de Outubro de 2022 às 09h00

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Nos últimos 20 anos, a humanidade tem enfrentado um número sem precedentes de surtos, epidemia e pandemias — mais recentemente, as atenções estão voltadas para a covid-19 e a varíola dos macacos (monkeypox). No entanto, estes não serão os últimos agentes infecciosos que a ciência será obrigada a lidar, de forma emergencial. Hoje, um dos principais desafios é ampliar as formas de vigilância para identificar a próxima pandemia.

A partir da nossa história recente, “o que é mais importante agora é saber quando será o próximo surto ou a próxima pandemia e quem será o [novo] vilão”, afirma Celso Granato, infectologista e diretor clínico do Grupo Fleury, durante o 7º Encontro Fleury de Jornalismo em Saúde, no qual o Canaltech esteve presente.

Quais vírus e bactérias podem causar a próxima pandemia?

Para a sorte da humanidade, contamos com recursos de informática, Inteligência Artificial (IA) e machine learning, inimagináveis no passado, mas “a gente não tem bola de cristal”, lembra Granato. “Temos desde surto de coisas novas até de antigas que, de repente, voltam”, acrescenta sobre as possibilidades de riscos pandêmicos e a necessidade constante de vigilância epidemiológica.

Cientistas e médicos já encararam emergências mais frequentes na área da saúde

Se olharmos para o passado recente, “temos enfrentado situações de emergência pelo menos a cada dois anos, gerando a necessidade de desenvolvimento de técnicas não comercializadas em tempo recorde”, afirma Granato.

Apesar do desafio, a onda de emergências na área de saúde permitiu muitos avanços. A seguir, confira quais foram os principais surtos, epidemias e pandemias que enfrentamos nos últimos 20 anos:

Importância da vigilância epidemiológica

Conseguir desenvolver uma vacina em tempo recorde, como foi o caso da covid, ou ainda testes eficazes contra um agente infeccioso desconhecido, somente é possível por causa dos avanços na área de vigilância — e este é um braço da pesquisa que merece um aporte maior de investimentos e recursos, já que é extremamente estratégico.

Como no tratamento de algumas doenças, como o câncer, a máxima sobre a importância do diagnóstico precoce se encaixa perfeitamente. Afinal, o conhecimento e medidas rápidas podem impedir novas tragédias pandêmicas, como a que aconteceu com o coronavírus. Somente no Brasil foram mais de 680 mil mortes oficiais.

Como funciona esse tipo de vigilância para identificar novos surtos ou epidemias?

Para entendermos se estamos diante de um novo surto (ou não) de uma doença já conhecida, “primeiramente, teremos que olhar muito cuidadosamente a frequência de positividade que temos", explica o infectologista Granato. Este ponto é normalmente acompanhado por relatórios diários, indicando novas tendências.

Caso o número de testes para uma determinada doença comece a crescer rapidamente, uma espécie de sinal amarelo é acesa. Nesse momento, o laboratório que identificou o possível problema deve avisar as autoridades de vigilância. Em seguida, elas vão checar o fato com outros laboratórios, hospitais e no Sistema Único de Saúde (SUS). Se o movimento não é apenas local e específico, o sinal vermelho acende.

Neste processo, também é fundamental comparar a tendência com o histórico já conhecido para aquele patógeno, já que, eventualmente, algumas doenças são endêmicas e têm comportamento sazonal, ou seja, são mais comuns em determinadas épocas do ano.

E se não sabemos qual é a doença que causa um surto? Temos a metagenômica!

Agora, se o agente infeccioso for um completo desconhecido e não existir exames prontos para o diagnóstico, o caminho é outro. São necessárias técnicas mais avançadas, que podem ser feitas pelos centros de pesquisa e referência em saúde. Neste momento, entra em cena a metagenômica.

“A metagenômica é uma técnica que a gente utiliza no Brasil, mas em uma escala muito menor, em que você praticamente colhe o material do paciente, coloca no equipamento e ele vai dizer qual é o agente que está causando a infecção", comenta o infectologista.

Este tipo de teste não suporta um volume muito grande de análises, mas é fundamental para permitir que os cientistas e médicos entendam contra o que estão lidando. “A partir da identificação, vamos saber se precisamos montar um teste para um coronavírus novo. Vamos detectar se está havendo uma infecção pelo vírus da hepatite E ou pelo norovírus", explica.

A técnica permite que "cheguemos a um diagnóstico primário daquilo que está acontecendo, com uma rapidez muito grande e, a partir daí, montar um teste que pode ser aplicado em uma frequência muito alta", acrescenta.

Exames para diagnóstico são fundamentais

Vale voltar mais uma vez para o exemplo da covid e, como o avanço do diagnóstico foi impressionante. No final de 2019, as infecções pelo coronavírus SARS-CoV-2 eram taxadas como uma pneumonia misteriosa e altamente mortal. Naquele momento, não se imaginava a sua causa e muito menos existiam exames para diagnósticos.

Em poucos meses, o cenário mudou e todo o globo já sabia como identificar o vírus, através do compartilhamento de informações em tempo recorde. Durante os estágios mais agudos da covid no Brasil, os laboratórios do Fleury chegaram a realizar cerca de 12 mil testes por dia. Nas duas últimas semanas, a média diária era de 800. Este é mais um dos indicadores, como já sugeriu a Organização Mundial da Saúde (OMS), que estamos no fim dessa corrida.

Impacto das alterações ambientais

Se analisarmos a lista de agentes infecciosos que causaram as últimas epidemias e pandemias nos últimos anos, vamos observar que são, em sua maioria, vírus. Nesse ponto, o infectologista lembra que eles são muito adaptáveis e uma nova geração surge, em média, a cada 20 minutos. Para comparar, em humanos, uma nova geração leva pelo menos 20 anos para "aparecer".

Somando as possíveis vantagens dos vírus, "eles estão se adaptando cada vez mais em ambientes diferentes", explica o médico, o que pode ser um perigo quando se lembra das alterações humanas provocadas pelo globo. Entre elas, estão o aquecimento global, a acidificação dos oceanos e os desmatamentos.

Neste ponto, cada vez mais, vamos facilitar que vírus que eram de morcegos, mosquitos, ratos e outras espécies transbordem e cheguem até os humanos. Por enquanto, “não sabemos ainda a dimensão do que está acontecendo e o impacto que isso vai ter na saúde humana", completa Granato.

Recentemente, cientistas da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) investigaram qual o risco de surtos de zoonoses — doenças que são transmitidas de animais para humanos — ocorrerem no país. Segundo a análise, pelo menos sete estados brasileiros apresentam um alto risco para surtos de zoonoses e, eventualmente, podem provocar novos surtos, epidemias e, num ponto extremo, pandemias.