Afinal, o que é sono profundo? Estudo questiona nossa percepção sobre ele

Por Fidel Forato | Editado por Luciana Zaramela | 19 de Novembro de 2021 às 08h30

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O que explica a sensação de sono profundo, após uma boa noite de descanso? A principal ideia era que esta sensação é alcançada quando as ondas cerebrais diminuem o seu ritmo e, ao chegarem a esse estágio, os indivíduos conseguiriam relatar um bom período de descanso ao despertarem. No entanto, um estudo suíço observou que nem sempre as pessoas têm a real compreensão do sono e podem se sentir "acordadas" ou agitadas mesmo durante o sono profundo.

Para investigar as causas da insônia, uma equipe de pesquisadores do Centro Hospitalar Universitário Vaudois (CHUV), na Suíça, identificou evidências que desafiam a teoria de que ondas cerebrais lentas e menor atividade cerebral durante o sono indicam que a pessoa está se sentindo profundamente adormecida. Os resultados do estudo foram publicados na revista científica Current Biology.

Como o cérebro funciona enquanto dormimos?

Antes de seguirmos para as descobertas dos cientistas suíços, vale compreender como o sono funciona. O ciclo do período de descanso é divido em dois grandes grupos: o sono NREM (movimento não-rápido dos olhos, traduzido do inglês) e o REM (movimento rápido dos olhos). Durante a noite, o ciclo completo costuma ser repetido de quatro até seis vezes.

Conhecido como a primeira parte do descanso, o sono NREM possui quatro diferentes estágios. Através dele, o indivíduo consegue recuperar a energia física, já que a atividade neural é reduzida e o descanso profundo ocorre. A seguir, confira os seus estágios:

  • Estágio 1: o processo de relaxamento começa, mas a pessoa ainda está na transição entre o estado de vigília e o sono. Por isso, qualquer estímulo do meio pode acordá-la;
  • Estágio 2: de forma gradual, o sono se torna mais profundo e a pessoa nem sempre responderá a algum estímulo do meio. Além disso, a atividade cardíaca é reduzida, os músculos relaxam e a temperatura abaixa;
  • Estágio 3: é o início da fase mais profunda do sono, sendo considerada um momento de transição;
  • Estágio 4: de fato, começa a fase mais profunda do sono. Nesse momento, diferentes hormônios podem ser liberados e o indivíduo deve estar pleno.

Após o último estágio do sono NREM, a pessoa retoma aos estágios 3 e 2. Em seguida, é iniciado o sono REM. Agora, os olhos fechados se movimentam rapidamente e os sonhos ocorrem. Há o máximo relaxamento muscular, mas também ocorre uma intensa atividade cerebral. Inclusive, a frequência cardíaca e a temperatura voltam a subir. Aqui, não há descanso profundo. Só que habilidades, como memória e criatividade, estão conectados com esse momento.

Experimento sobre o sono profundo

Para investigar as origens da insônia e, talvez, encontrar uma cura, os pesquisadores recrutaram 10 pessoas com insônia e 20 pessoas que costumam dormir bem para integrarem o estudo. Estes 30 indivíduos se submeterem a uma série de exames do tipo EEG (eletroencefalograma, em sono e vigília), enquanto dormiam em um laboratório. O exame investiga anormalidades que envolvem a atividade cerebral e é bastante usado em quem apresenta distúrbios do sono.

Durante o estudo, os pesquisadores interromperam o sono dos participantes por 787 vezes. Nesse momento, o voluntário era questionado sobre a qualidade do sono naquele momento e como ele se sentia. As perguntas ajudavam os cientistas a entender se a autopercepção do sono cruzava com a experiência vivida pelo cérebro.

O que o estudo francês descobriu?

Ao examinar os dados obtidos pelo ECG e pelos questionários, os pesquisadores fizeram novas descobertas. "Surpreendentemente, em pessoas que dormiam bem, o sono era subjetivamente mais leve nas primeiras 2 horas do sono NREM, geralmente considerado o sono mais profundo, e [o sono era subjetivamente] mais profundo no sono REM". Esta é a percepção oposta do que ocorre no corpo.

Em comparação com pessoas que dormem bem, as pessoas com insônia relataram o sono REM como sendo menos profundo, ou seja, mais leve. "Essas descobertas desafiam a noção amplamente difundida de que o sono de ondas lentas é o responsável pela sensação de sono profundo", escrevem os pesquisadores no artigo.

"A profundidade subjetiva do sono está inversamente relacionada a um processo neurofisiológico que predomina no início do sono NREM, torna-se quiescente no sono REM e se reflete na atividade do EEG de alta frequência. Em pessoas com percepção incorreta do sono, esse processo é mais frequentemente ativo, mais espalhado espacialmente e persiste anormalmente no sono REM", concluem os autores sobre as diferenças da qualidade do sono entre os indivíduos.

A partir dessas descobertas, o grupo de pesquisadores sugere que as ondas lentas do cérebro não necessariamente indicam um sono pesado e nem garantem a sensação de um bom descanso.

Fonte: Current Biology, com infomações da USP