Por que relógios da Huawei rastreiam seu sono diferente dos demais?

Por Bruno Bertonzin | Editado por Léo Müller | 21 de Agosto de 2022 às 13h00

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Huawei Watch GT 3
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Testando diversos modelos diferentes de relógios inteligentes de várias marcas para reviews do Canaltech nos últimos meses, notei que os modelos fabricados pela Huawei — desde os mais simples até os topos de linha — registram os dados de sono diferente do que vi em aparelhos de outras marcas.

Os resultados obtidos com os smartwatches da companhia chinesa sempre são bem discrepantes em relação aos dispositivos de empresas como Samsung, Amazfit ou Garmin.

Para contextualizar, esse rastreamento é importante para entender um pouco mais sobre o estado do usuário, afinal, dificuldades durante o sono podem dizer bastante sobre a saúde mental.

No monitoramento, geralmente são informados dados como o tempo total de sono e quanto foi registrado em cada fase, como sono REM, sono leve e sono profundo. Alguns modelos ainda incluem o nível de saturação de oxigênio no sangue, a frequência cardíaca e informam até quanto o usuário roncou durante a noite e a qualidade da respiração.

O problema é que cada fabricante utiliza métodos diferentes para calcular o sono, seja por meio da frequência cardíaca, da respiração ou outros aspectos. Com isso, o resultado pode ser um pouco diferente de uma marca para outra.

Geralmente, essa diferença é praticamente imperceptível, e se você troca de relógio pode não notar que o resultado está ligeiramente diferente.

No entanto, os smartwatches e smartbands da Huawei seguem um método específico e, consequentemente, entregam um resultado muito diferente da maioria dos relógios de outras empresas.

Nas últimas semanas, fiz um comparativo com vários relógios inteligentes e usei vestíveis da Huawei, Samsung, Amazfit, POCO, Realme, Fitbit e Garmin, para entender a diferença entre cada uma.

Em alguns casos, o resultado foi até parecido, mas a maioria teve uma diferença muito grande em relação aos dados obtidos no dispositivo da Huawei.

Modelos analisados

Método de análise

A fim de ter um resultado comparativo mais eficiente, usei dois relógios por noite — um em cada pulso, é claro. No direito usei sempre o Huawei Watch GTR 3 e no esquerdo alternei entre os outros modelos analisados, sempre um por noite.

Dessa forma, foi possível descobrir qual o resultado de cada um e fazer uma comparação mais realista entre eles.

Principais resultados

Para começar, é importante já frisar uma coisa: tenho usado alguns modelos diferentes de smartwatches já há um tempo e sempre mantenho-os no pulso durante a noite. Isso permitiu, principalmente, que eu conhecesse melhor a minha rotina de sono: quanto tempo em média eu durmo, qual o período em sono profundo, leve, REM, entre outros aspectos.

A surpresa veio quando comecei a usar um modelo da Huawei e vi que os resultados eram sempre diferentes, muito discrepantes do que eu já havia registrado até então. De primeira, achei que fosse uma especificidade da unidade que testei, mas isso se repetiu em outros relógios da marca.

Então, decidi fazer uma comparação maior para entender se a diferença ocorre com as principais fabricantes e, é claro, o motivo disso acontecer.

Usando um Galaxy Watch 4 Classic em um pulso e o Huawei Watch GT 3 no outro em uma mesma noite, a diferença de sono profundo foi de mais de uma hora de um para o outro. Os dados de sono leve e sono REM também foram bem diferentes.

Na prática, os resultados da Huawei mostram que eu tenho um sono bem mais saudável do que o modelo da Samsung, já que a quantidade de sono profundo foi maior e, consequentemente, o descanso também foi maior.

Quando comparei o vestível da Huawei com um Garmin Fenix 6 Pro Solar a diferença foi bem maior. Foram 39 minutos de sono profundo no Garmin e 2 horas e seis minutos no Huawei. Essa discrepância se repete nas comparações com o Amazfit GTS 2 Mini, Amazfit GTR 3 Pro e Fitbit Versa 3.

Comparação Huawei Watch GT 3 com Galaxy Watch 4 Classic

Bruno Bertonzin/Canaltech

Apenas com dois modelos o resultado foi mais parecido: com o POCO Watch e com o Realme Watch 2. Curiosamente, são dois modelos de entrada com um monitor de sono mais básico, sem recursos mais avançados de monitoramento.

O POCO, por exemplo, registrou 2h10 de sono profundo em uma noite que o Huawei registrou 2h19 minutos. Já o Realme teve ainda mais tempo de sono profundo: foram 2h53 contra 2h18 do Huawei.

Comparação Huawei Watch GT 3 com Realme Watch GT 2

Bruno Bertonzin/Canaltech

Também fiz uma análise de comparação com dois modelos não-Huawei, a fim de atestar se há muita divergência no monitoramento de sono de marcas "aleatórias". Para isso, usei o Galaxy Watch 4 Classic e o Garmin Fenix 6 Pro Solar, que mostraram um bom desempenho para rastrear os dados durante a noite.

Nesse "embate", eles tiveram um sono profundo — que foi o dado que mais usei neste comparativo — bem parecido, apenas o sono REM teve uma diferença um pouco grande, mas não tanto como o que foi visto nas análises com o Huawei Watch GT 3.

A explicação da Huawei para seu rastreamento de sono diferente

Entrei em contato com a Huawei para entender o motivo desse comportamento diferente dos relógios da marca em relação à maioria dos outros smartwatches e smartbands disponíveis no mercado.

Segundo a fabricante, essa diferença deve ocorrer por conta do método de análise utilizado por ela e pelas demais empresas. A chinesa não destacou, com precisão, porque isso ocorre na prática, mas revelou como é feito o monitoramento em seus relógios.

A companhia explica que o método convencional — que é utilizado pelos hospitais e dá um resultado mais preciso sobre os dados durante o sono — não pode ser aplicado em dispositivos portáteis, como smartwatches e smartbands.

Ainda assim, a Huawei trabalha com importantes e renomados institutos de pesquisas ao redor do mundo para aplicar um método de estudo eficiente. Confira a explicação da marca na íntegra:

Os hospitais geralmente usam a tecnologia de polissonografia (PSG) para registrar e analisar sinais fisiológicos como EEG, ECG, EMG, EYE e fluxo de ar nasal para alcançar o monitoramento do sono, mas sua portabilidade não é alta; o algoritmo de sono Huawei Watch usa sinais de Fotopletismografia (PPG), que extrai ondas respiratórias RRI e resposta eletrodérmica (EDR), e usa a relação entre o espectro de frequência e os estágios do sono durante o acoplamento cardiopulmonar para alcançar uma correlação precisa com PSG. Além de ter trabalhado com a Harvard Medical School, o algoritmo de sono Huawei trabalhou tanto com a Universidade de Berna na Suíça quanto com o Hospital da Universidade de Pequim Número 6, e é capaz de alcançar mais de 93% de precisão na duração integrada do sono quando comparado com os testes PSG em hospitais.

Em suma, a empresa defende o seu método de rastreamento do sono dizendo que ele é baseado em processos médicos realistas, mas também comenta que não saberia dizer exatamente onde seu sistema difere dos rivais, pois eles não são abertos, e a chinesa não tem acesso a eles.

Seja como for, relógio ou pulseira inteligente algum conseguiria rastrear seu sono de forma plena, pelo menos não com a tecnologia atual. Assim, se você tem algum problema grave para dormir, é mais importante procurar um médico especialista do que comprar um relógio como esses que testamos para averiguar sua saúde.

Os dados que eles geram são mais para acompanhamento despretensioso. Em outras palavras, se você trocar de smartwatch ou smartband e notar alguma discrepância no monitoramento de sono, fique tranquilo. Há mais chances de os diferentes métodos de medição terem afetado a análise do que você ter "dormido diferente" em determinada noite.