O que a Xiaomi precisa fazer para voltar a empolgar?

Por Jucyber | Editado por Léo Müller | 24 de Março de 2022 às 14h22

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Mi 11 Ultra
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A Xiaomi é a marca com maior e melhor ascensão no mercado de tecnologia com foco em produtos nos últimos anos. Esse sucesso se deve, principalmente, a parte de dispositivos móveis desenvolvidos pela gigante chinesa.

Entretanto, ultimamente, tem sido cada vez mais comum ver usuários alegando que o uso dos modelos da empresa não tem causado a empolgação vista outrora. Apesar de existirem diversos fatores, grande parte diz que a falta de agressividade em relação ao preço cobrado acaba afetando a experiência.

A primeira vinda da Xiaomi ao Brasil foi em 2015, e isso ajudou no boost da marca por aqui. Porém, não demorou muito para a gigante chinesa deixar o público “órfão” ao sair do país em 2016. Dessa forma, ver os celulares com os preços baixos aplicados pela marca diretamente por aqui se tornou uma lembrança.

Por muito tempo, vimos o crescimento da Xiaomi no Brasil sem uma mensuração correta pelo fato de os aparelhos da marca não serem comercializados oficialmente por aqui. Isso está relacionado à questão de o maior número das vendas serem efetuadas via “mercado cinza”.

Muitos comerciantes importarem o produto para revenda, e pessoas físicas fazem o mesmo para conseguirem ter em mãos os dispositivos desejados a um preço menor e mais atrativo ao bolso.

Entretanto, a volta da Xiaomi ao Brasil em 2019 — retorno em parceria com a DL — permitiu um impulsionamento nas vendas e na representação dentro do país. De acordo com o Statcounter, ano após ano, a chinesa conseguiu duplicar o seu market share, e atualmente ocupa a 4ª posição em participação no mercado mobile brasileiro com uma fatia de 11,7%.

Em 2021, no entanto, as mudanças de estratégia fizeram a marca fechar o período com o seu crescimento anual estagnado em 2,37%, e isso demonstra que a empolgação do público em comprar os lançamentos da Xiaomi está diminuindo.

Apesar de ter números estatísticos baixos no mercado de celulares, o primeiro semestre de 2021 representou um crescimento de 370% em geral para a Xiaomi no Brasil, pois a empresa está sempre bem posicionada nas vendas de acessórios compactos, como as Mi Bands e os fones da linha AirDots.

“Na maioria dos países, a categoria de smartphones é líder indiscutível. Aqui, produtos como Balança, Mi Smart Band e Fones de Ouvido costumam estar constantemente no top 5 em vendas”, disse Luciano Barbosa, head da Xiaomi Brasil.

Mas o que pode estar ocasionando essa oposição dos usuários? Existe algum elemento que precisa voltar ou fazer parte do “DNA” dos celulares da empresa para gerarem interesse no público? Confira a minha opinião a seguir com foco maior no comportamento da marca aqui no Brasil.

Ramificação excessiva

Ao longo de 2021, a Xiaomi realizou o lançamento de 45 celulares a nível mundial, somando os modelos que foram disponibilizados para compra via importação. No entanto, essa quantidade é dividida entre a “empresa mãe” e as subsidiárias da marca: Poco e Redmi.

Isso quer dizer que a empresa deu aos clientes uma lista vasta de opções para aquisição, e muitas vezes isso causa confusão por alguns produtos serem iguais em especificações e terem apenas uma alteração na nomenclatura ou conectividade.

Entretanto, é inegável que a linha Redmi é uma das mais populares aqui no Brasil, e isso se deve ao fato de existirem opções com configurações atrativas dentro do mercado nacional a um preço coerente. Por isso, são chamados de smartphones custo-benefício.

Mas se formos analisar bem, muitos aparelhos da categoria de intermediários da Xiaomi se tornam irrelevantes quando celulares específicos da marca se destacam. É o caso do Poco X3 Pro, que se tornou um dos melhores intermediários de 2021 e deixou outros modelos da Xiaomi em segundo plano.

Preços em ascensão

Quando a Xiaomi chegou ao Brasil em 2015, o Redmi 2 era o lançamento de maior destaque da marca por aqui. O smartphone com configurações atrativas para época era comercializado por R$ 500. Porém, atualmente não existem modelos da marca — muito menos de concorrentes — que entregam as mesmas características nessa faixa de preço.

Obviamente, a culpa não é só da gigante chinesa, já que passamos por diversas mudanças no mercado financeiro a nível nacional. Além disso, os reflexos dos reajustes no mundo todo com a reestruturação monetária das principais economias após o período pandêmico causado pela covid-19 e suas variantes.

Entretanto, avaliando o cenário de vendas da Xiaomi Brasil, é possível notar que existe uma variação grande entre o preço aplicado no “mercado cinza” e o visto nas lojas físicas ou site da empresa.

Tomando como exemplo o Redmi Note 10S, que é considerado um intermediário premium interessante para gamers, esse produto é vendido oficialmente pela marca por R$ 2.759,99.

Em contrapartida, é possível ver o aparelho em varejistas que permitem o marketplace — lojas que revendem dentro de um site grande — por menos de R$ 1.500.

Essa diferença de quase 84% pesa bastante na decisão de compra do público, mesmo que a Xiaomi ofereça alguns benefícios embutidos na revendedora oficial, como a garantia de 1 ano em caso de problemas no aparelho.

Devido à importação, é notório que o preço aplicado pela DL e Xiaomi ainda fica muito alto. Considerando o valor do produto vindo direto da China por US$ 222 (~R$ 1.127,76) e as taxas em 60%, o Redmi Note 10S poderia ser adquirido por R$ 1.876,37, que é 47% mais barato do que o cobrado na loja oficial da marca aqui no país.

As mudanças na precificação são sentidas com muito mais força nos celulares topo de linha da empresa, pois o Xiaomi Mi 11, foi anunciado por CN¥ 3,999 (~R$ 3.172). Porém, é comercializado por aqui no valor de R$ 9.199.

Essas práticas demonstram que a Xiaomi pode estar utilizando a mesma tática de valorização vista na Apple, que é a de disponibilizar aparelhos com preços exorbitantes para demonstrar que os consumidores são fiéis à marca, independentemente do valor embutido no produto.

Porém, na prática, isso não se aplica positivamente dentro do Brasil, pois a linha de intermediários até R$ 2.000 já atende a maioria dos usuários, e poucos optam por adquirir os topos de linha da chinesa por um preço equivalente ao visto nos iPhones, que possuem um preço de revenda muito mais atrativo a curto, médio ou longo prazo.

Dante Baptista, jornalista e analista do Escolha Segura, lembra que os custos para manter os aparelhos à venda em lojas físicas influenciam negativamente nos preços, e que o caminho para conquistar os clientes das concorrentes mais atuantes e populares por aqui ainda é longo.

“O dólar alto, a carga tributária e a operação cara com lojas físicas, feita em parceria com a DL, tornaram a operação Xiaomi no Brasil um grande desafio, especialmente na manutenção dos preços que tornaram a fabricante tão amada no mundo todo. Já em seu retorno ao Brasil, há quase três anos, era possível notar a tendência de celulares e acessórios caros, que se agravou nos últimos dois anos.

Com preços no mesmo patamar e menos conhecida que Samsung e Motorola no Brasil, a pergunta que fica é: será que a Xiaomi consegue conquistar uma fatia do mercado além de seus Mi Fãs?”.

Histórico negativo de bugs

Toda fabricante possui uma linha ou outra que se destaca pelos problemas ocasionados aos usuários. Porém, a Xiaomi permaneceu por muitas gerações com repetições de bugs que poderiam ser evitados se a empresa não fizesse corte de custos desnecessários em seus smartphones.

Exemplos práticos disso aconteceram nos modelos Redmi Note 7 e Redmi Note 8 que apresentaram a retenção de tela, que consiste em uma mancha no painel LCD pelo uso excessivo de aplicativos específicos por muito tempo, e isso formava uma espécie de marca d’água. Entre as justificativas para esse problema, está o fato de manter o aparelho com brilho máximo constantemente.

Além disso, alguns modelos do Redmi Note 9S protagonizaram o toque fantasma, que são ações executadas pelo celular sem uma ação prévia do usuário para tal. E, ao longo do tempo, o uso do smartphone se torna impossível e a única opção é desembolsar algumas centenas de reais para colocar o dispositivo no conserto e trocar a tela.

Em soma a todas as dificuldades físicas, algumas atualizações deram bastante dor de cabeça aos usuários, como é o caso de quem tinha o Xiaomi Mi A3. Quando o aparelho recebeu o Android 10, algum comprometimento no software fez o smartphone simplesmente parar de funcionar, e a sua “morte” foi decretada.

Para quem estava nas regiões em que a Xiaomi operava oficialmente, o problema foi resolvido com uma ida ao local de atendimento mais próximo. Mas, naquele período, a marca ainda não havia retornado ao Brasil, e isso fez com que os usuários vissem seus celulares serem transformados em “peso de papel”.

Entretanto, precisamos ser justos e relatar o quanto a empresa conseguiu melhorar no quesito atualização após essa falha que causou um grande prejuízo e cooperou para a “aposentadoria” da linha A. Mesmo que alguns bugs ainda sejam detectados em updates, não existem mais problemas em larga escala.

Outro ponto que precisa ser citado como solucionado está relacionado à retenção e ao toque fantasma, pois a Xiaomi deixou de comprar seus displays com a fabricante que protagonizava essas falhas na experiência de uso, a Tianma.

Assim, vimos a gigante chinesa recorrer aos painéis Super AMOLED fornecidos pela Samsung para instalar, principalmente, em seus intermediários. Por este motivo, o Redmi Note 10 não possui relatos de infortúnios relacionados ao display.

A qualidade fotográfica ainda tem espaço para melhorias

Não é novidade que a Xiaomi conseguiu evoluir bastante a qualidade fotográfica de seus smartphones, principalmente os topos de linha. Prova disso é que o Mi 11 Ultra segue nas primeiras posições do ranking DxOMark, mesmo após um ano desde o seu anúncio.

Todavia, os intermediários ainda precisam trilhar um longo caminho para chegar no mesmo patamar. Muitas vezes, a marca adiciona diversos sensores em seus modelos, mas eles se mostram desnecessários por terem capacidades abaixo do esperado e não atenderem às expectativas.

Acredito que os sensores já receberam ótimos aprimoramentos, mas poderiam ser mais bem aproveitados se a Xiaomi alterasse a forma como o app de câmera nativo da empresa explora o hardware.

Sabe-se que o problema não são os processadores instalados nos smartphones, já que a Qualcomm e MediaTek — que são as principais fornecedoras de chipsets para a marca — têm feito um ótimo trabalho para suportarem sensores cada vez mais robustos e com recursos de filmagem avançados.

Há bastante tempo, os usuários fazem uso de aplicativos alternativos para terem acesso a qualidade total dos sensores. Um exemplo disso são as versões customizadas do app GCam, que são distribuídas em diversos fóruns especializados em mobile que estão espalhados pela internet, como o XDA.

Uma vantagem argumentada por grande parte dos usuários desse aplicativo personalizado está relacionada ao aprimoramento visto na nitidez das fotos. Além disso, o realismo impresso nas cores do ambiente e tons de pele indicam que a Xiaomi tem um bom hardware nos sensores, mas o software ainda não consegue explorar isso em totalidade.

Na opinião de Wallace Moté, editor de Produtos do Canaltech, a Xiaomi ainda insere mais câmeras do que o necessário em seus aparelhos para chamar a atenção pela quantidade e esquece de alinhar isso com a qualidade, ao contrário de muitos concorrentes.

“A Xiaomi precisa parar com essa política de entupir os celulares de câmeras descartáveis apenas para fazer número. O iPhone 13 só tem duas câmeras, e ninguém reclama de faltar ali uma macro e uma de profundidade. Ela chega ao ponto de fazer isso até em modelos mais caros como o Xiaomi 12, que traz uma câmera "telemacro" de 5 MP totalmente destoante do resto do conjunto e do que a categoria merece”.

Reclamações dos usuários que persistem

Mesmo que muitas soluções tenham sido disponibilizadas pela marca nos últimos anos para conseguir recuperar a reputação no mercado mobile e alcançar uma nova parcela de clientes, ainda existem problemas recorrentes que precisam ser ajustados.

Um deles é o excesso de bloatwares — aplicativos pré-instalados —, pois grande parte desses programas não tem relevância para a usabilidade no dia a dia. Há algumas gerações, a MIUI permite a desinstalação desses apps. Agora, não é mais tão simples.

Isso porque é necessário ter um conhecimento mais aprofundado para que a desinstalação seja realizada sem que a ação corrompa com a interface e o sistema.

Outro ponto que ainda influencia negativamente na experiência de uso dos celulares fabricados pela Xiaomi é o excesso de propagandas presentes na interface.

Antigamente, a justificativa da marca para disponibilizar os anúncios era o fato de os celulares serem extremamente baratos e isso afetar a margem de lucro da chinesa. Com os preços agora subindo cada vez mais, esse argumento não faz mais sentido.

Capturas da interface MIUI

Xiaomi 11T 3D Mark

Jucyber/Canaltech

Entretanto, as mudanças na precificação dos produtos fizeram com que os ganhos subissem consideravelmente. Consequentemente, a exibição de “Ads” dentro da MIUI deixou de ser uma necessidade para melhorar os ganhos e passou a influenciar negativamente no uso do celular.

Assim como os bloatwares, é possível desabilitar os anúncios. Entretanto, a configuração demanda tempo por ser efetuada individualmente em alguns aplicativos. Além disso, o processo não é permanente, pois as atualizações que alteram a versão da interface costumam reabilitar as propagandas.

Por fim, Luan Pires, criador do canal no YouTube L Tech, diz que a Xiaomi precisa corrigir os problemas vistos nas gerações anteriores para voltar a conquistar clientes. Porém, esse processo pode demandar mais tempo do que o público imagina.

“Caso a Xiaomi corrija os erros dos modelos anteriores em suas novas versões, acredito que levará entre 1 e 3 anos para os consumidores “esquecerem” o ocorrido com os modelos passados, tendo que fazer um trabalho primoroso nos próximos anos e não deixar passar nenhuma brecha nas novas versões”.

O que falta para a Xiaomi voltar a empolgar?

Sabemos que nem tudo que está influenciando negativamente na venda dos celulares da Xiaomi no Brasil é por culpa da empresa. Afinal, o mercado mobile sofreu grandes alterações em um curto espaço de tempo, e ocorrências inesperadas também impactaram na atuação da marca.

Entretanto, existem estratégias que a gigante chinesa pode implementar para ajudar a equilibrar melhor as configurações entregues nos celulares com o preço. Uma prova de que isso é possível pode ser vista no Redmi Note 11, que recebeu poucos upgrades em relação ao seu antecessor para que o impacto no bolso do cliente fosse menor.

Em contrapartida, alguns ajustes o deixaram em um patamar abaixo do Redmi Note 10 em desempenho geral e, principalmente, fotografia. Sendo assim, vemos que a Xiaomi ainda precisa entender o que significa entregar um celular “bom e barato”, até mesmo para o cliente brasileiro, já que o intuito é ganhar mais espaço com a comercialização oficial por aqui.

Outro ponto que merece uma atenção especial é a reorganização das linhas para evitar lançamentos excessivos.

Até porque não existe uma real necessidade de se anunciar modelos 4G e posteriormente disponibilizar esses mesmos smartphones em suas versões com 5G — nos quais acontece apenas uma alteração para o chipset compatível com a nova conectividade e não há nenhum ganho significativo no desempenho que justifique a ramificação.

Se a Xiaomi conseguir ajustar isso, pode ser que vejamos uma nova era de maturidade da marca dentro do mercado mobile. E como vantagem, a cartilha de lançamentos será menor e a distribuição de categorias dos smartphones causará menos confusão na cabeça dos usuários.

Obviamente, existem outros ajustes que a gigante chinesa precisa fazer para voltar a empolgar o público, mas eles estão mais relacionados à parte de software.

Como é o caso das alterações na maneira como o app de câmera explora os sensores dos celulares, bem como as otimizações na MIUI para que ela volte a ser uma interface atrativa, como foi outrora.

Todavia, focar no que ainda está causando uma maior debandada de clientes — o preço — nos próximos anos já ajudará a reverter a situação da empresa no mercado, principalmente no ocidente, e alcançar uma camada maior de usuários que atualmente preferem outras fabricantes.

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