Anéis de Poder | O machismo e racismo em torno da série de O Senhor dos Anéis

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 10 de Setembro de 2022 às 19h00

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A estreia de O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder pode ter sido um sucesso de crítica e público, mas a nova série do Amazon Prime Video não escapou ilesa das polêmicas e das controvérsias que envolvem a sempre tóxica discussão sobre a adaptação de clássicos, principalmente quando isso envolve mexer em etnias e dar mais protagonismo às mulheres. Em resumo, o que deveria ser uma ode a um dos maiores clássicos de fantasia virou um debate sobre racismo e machismo na cultura pop.

Esse é um debate que está bem longe de ser novo, na verdade. Há menos de um mês, Sandman protagonizou o mesmo debate quando trouxe uma Morte negra ou transformou John Constantine em Johanna. A diferença é que, no caso de Os Anéis de Poder, a repercussão passou a rivalizar com a boa recepção dos primeiros episódios.

O ponto central de toda essa discussão é como parte dos fãs está usando um suposto apego ao material original para escancarar preconceitos, alegando que nada daquilo existe na obra original e desconsiderando que o papel de uma adaptação é justamente adaptar o conteúdo. E, infelizmente, esse tipo de abordagem se tornou regra dentro do mundo nerd.

Entendendo a treta

Com Os Anéis de Poder, os ataques são bem anteriores à estreia dos dois primeiros episódios. Na verdade, eles começaram tão logo a Amazon começou a escalar o elenco e divulgar as primeiras informações da adaptação. Mais especificamente, as críticas começaram quando foi confirmado que veríamos alguns personagens de outras etnias na Terra-Média.

E não há como negar que a nova série realmente tem um elenco bastante diverso. O inglês Lenny Henry, que vive o pé-peludo Sadoc Burrows, é filho de jamaicanos, enquanto o elfo Arondir é interpretado pelo porto-riquenho Ismael Cruz Cordova. Há ainda a iraniana Nazanin Boniadi como Bronwyn e Sophia Nomvete como a divertida princesa anã Disa. Isso sem falar dos atores que ainda vão aparecer nos próximos episódios.

Só que parte dos fãs não viram com bons olhos essa tentativa de tornar a Terra-Média mais plural. Segundo eles, nada disso está presente na obra de Tolkien e, por isso, colocar um elfo ou um anão negro seria desrespeitar a obra original e que, por isso, o autor estaria “se revirando no túmulo” em desaprovação ao que eles chamam de “lacração” ou qualquer coisa que o valha.

Bem, se Tolkien está se mexendo ou não em seu túmulo é algo que somente uma equipe de legistas pode dizer. Mas a verdade é que esse se tornou um argumento bastante recorrente entre os críticos de Os Anéis de Poder e que foi usado até mesmo por Elon Musk, que também não gostou da adaptação, mas por outro motivo.

O bilionário que falhou em comprar o Twitter se juntou ao coro dos fãs que acharam que o seriado abraçou o politicamente correto ao dar mais espaço para personagens femininas. Aí, além do racismo citado anteriormente, as críticas passaram a denotar um machismo que se incomodou com o fato de Galadriel (Morfydd Clark) e outras mulheres terem mais destaque na trama do que nos filmes anteriores ou mesmo nos livros.

E realmente isso acontece. Já no primeiro episódio, a elfa protagonista lidera um grupo de soldados aos confins do mundo em busca de Sauron, dá piruetas no ar mesmo de armadura e luta sozinha contra um troll das neves — tudo isso enquanto seus companheiros estavam apanhando feio. E o que deveria ser visto como uma forma de destacar uma das personagens mais poderosas e importantes de todo o universo de O Senhor dos Anéis virou um problema.

O próprio Musk bateu nessa tecla ao falar como, na série, os homens são diminuídos para dar espaço às mulheres. “Quase todos os personagens masculinos são covardes, idiotas ou ambos. Apenas Galadriel é corajosa, inteligente e legal”, escreveu em seu perfil nas redes sociais.

Tudo isso fez com O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder se visse no meio uma queda de braço entre discursos racistas e misóginos disfarçados de um apego quase religioso à obra original e quem realmente gostou do trabalho feito pela série.

Isso fica bem óbvio quando olhamos para o Rotten Tomatoes, que agrega opiniões da crítica e do público. Enquanto a média da imprensa é bastante positiva, 85%, a nota dada pelos usuários está em 39% — reflexo de uma campanha organizada por parte do pessoal para diminuir a média e expor seu descontentamento com as mudanças.

Tanto que, em boa parte dessas críticas, há alguma menção a um suposto desrespeito à obra de Tolkien e ao modo como certos personagens são retratados.

Repercussão

Diante de todo barulho, alguns atores de Os Anéis de Poder vieram a público comentar os ataques e dar sua opinião sobre toda a discussão em torno da série.

Em entrevista à Times, Lenny Henry pontuou o seu incômodo com o comportamento dos supostos fãs. “Em mundos de dragões e elfos, por que a escalação de um homem negro é o limite da suspensão da descrença dos fãs de fantasia?”, questionou.

O ator que vive um pé-peludo — a raça que vai dar origem aos hobbits — destacou que essas mudanças são inerentes a viver no século XXI e refletem o quanto as pessoas querem se ver em obras de ficção. “Tem realmente muita coisa que não está nos livros, mas isso foi naquela época e estamos contando uma história agora”.

Quem também falou sobre o assunto foi Ismael Cruz Córdova. À Esquire, ele contou que já havia sido avisado desde sua escalação de que esse tipo de reação iria acontecer e que ele se preparou para isso. “Eu lutei muito por este papel por uma razão: eu sabia que poderia carregar esse fardo. Fiz com que meu personagem fosse o mais élfico e incrível possível porque eu sabia que as críticas viriam”.

Em seu perfil no Twitter, inclusive, o ator fez uma sequência de postagens destacando a importância de sua presença na série e do papel da representatividade como fator de pertencimento em grandes obras, como O Senhor dos Anéis. “Não é sobre um pôster. É sobre ser inegável e irrevogavelmente presente como povo, como seres e como indivíduos”, escreveu.

Além disso, outras celebridades também se pronunciaram em defesa da série e de seus atores. Um dos nomes mais proeminentes neste sentido foi o do escritor Neil Gaiman, criador da série Sandman, que usou suas redes sociais para rebater a crítica de Elon Musk: “Ele não me pediu conselho sobre como falhar em comprar o Twitter e eu não o procuro para falar sobre crítica de cinema, TV ou literatura”.

Já em relação às críticas enviadas a plataformas como o Rotten Tomatoes, a própria Amazon deu seu jeito de evitar que ações coordenadas afetem a impressão do público em relação a Os Anéis de Poder. Tão logo as reclamações começaram, a empresa limitou a publicações de resenhas do público para impedir a proliferação de opiniões falsas feitas apenas para atacar — uma política que não foi muito bem recebida pelos usuários.

O que diz a obra de Tolkien

Embora seja verdade que a série adota algumas liberdades criativas na hora de representar um personagem ou mesmo apresentar uma situação, não há como dizer que algumas dessas caracterizações são gratuitas — como os críticos apontam.

O próprio Tolkien descreve os pés-peludos como uma raça de pele mais escura, o que se encaixa perfeitamente dentro daquilo que a série mostrou até aqui. E mesmo em relação aos elfos, anãos e humanos, trazer um ou outro personagem com feições diversificadas está longe de parecer um crime ou capaz de fazer um autor morto há quase 50 anos se mexer no túmulo.

Nesse aspecto, entra outro ponto importante dentro da polêmica que é comumente ignorado por esses defensores de uma fidelidade exagerada com a obra original. Todos os livros, e o próprio Tolkien, são frutos de seu tempo.

O autor nasceu ainda no século XIX e cresceu em um mundo bem diferente do nosso. Era uma realidade ainda muito eurocêntrica em que questões como diversidade ou mesmo discussões de gênero não tinham o peso que têm hoje.

Basta lembrar que ele próprio lutou no Primeira Guerra Mundial, um conflito que tem o colonialismo europeu como uma de suas principais raízes. E quando ele vai descrever os orques, por exemplo, esse tipo de pensamento se torna bem mais evidente.

Assim, não dá para culpar Tolkien por imaginar um mundo de fantasia demasiadamente branco quando, no início do século XX, a sociedade pensava quase que apenas dessa forma. A questão é, como o próprio Lenny Henry pontua, a série chega ao streaming para conversar com o público de 2022 e não com o de 1954.

Críticas pertinentes

Ao mesmo tempo, não dá para negar que algumas das críticas que estão sendo feitas a O Senhor dos Anéis: Os Anéis de Poder são pertinentes. E é aí que toda essa polêmica vazia se torna mais problemática: as reclamações que realmente fazem sentido se perdem em meio às controvérsias que nada têm a ver com a produção, mas com parte desse público.

Muita gente não gostou da série não por questão desse ou daquele personagem ou pelo modo com que alguns atores foram escolhidos. Para eles, a questão é um pouco mais simples: a produção é muito pobre perto do que ela se propunha a apresentar.

Um dos pontos mais recorrentes nessas críticas é o próprio roteiro. Na tentativa de dar destaque a determinadas situações, como à força de Galadriel, o seriado apela para situações vazias ou que não fazem muito sentido — como fazer a elfa cruzar o oceano a nado.

E essas avaliações são totalmente válidas, pois apontam questões técnicas e estruturais da obra que realmente precisam ser avaliadas. O problema é que isso acaba sendo deixado em segundo plano por causa das polêmicas ou usadas por quem quer apenas reclamar de questões identitárias.