Crítica Adão Negro | Um filme equivocado do começo ao fim

Por Durval Ramos | Editado por Jones Oliveira | 18 de Outubro de 2022 às 21h30

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Adão Negro é um filme completamenbte equivocado, da sua primeira cena ao pós-crédito. O filme que tinha tudo para ser a grande retomada do Universo Cinematográfico da DC (DCEU, na sigla em inglês) depois de um período conturbado na Warner Bros, tanto de gestão quanto criativo, tropeça em um roteiro bobo, exageros desnecessários e uma série de vícios que já tinham comprometido outras produções.

E não falo apenas apenas do excesso de câmera lenta sem necessidade ou das cenas de ação intermináveis que fazem com que o filme ecoe uma estética à la Zack Snyder de que o estúdio já abriu mão uma vez. O grande problema de Adão Negro é o fato de ele não saber ao certo o que quer ser, apontando para todos os lados e tentando emular uma fórmula e um espírito que não pertence à Warner, ao DCEU nem muito menos ao personagem.

Com o sucesso de The Batman, a gente achou que o estúdio tinha entendido que um herói não precisa dessa mistura de ação e humor ou referências jogadas na tela, bastando apenas uma boa história para que a trama funcione. Contudo, o que temos é justamente uma tentativa de seguir uma cartilha já datada que não traz nada de novo além de uma promessa que não se concretiza.

Depois de passar anos dizendo que Adão Negro iria mudar o equilíbrio de forças dentro da DC, eis que o anti-herói chega fazendo tudo aquilo que a gente já está cansado de ver e se torna apenas mais um entre tantos nesse já saturado balaio.

Construindo o anti-herói

O principal problema no rumo equivocado que o longa toma está em seu protagonista. Não é que Dwayne “The Rock” Johnson é o Adão Negro — mas o contrário. Ao tentar adequar o personagem controverso e até dúbio dos quadrinhos para o tipo de filme que o astro sempre costuma fazer, todas as camadas e aquilo que tornava o personagem interessante é pasteurizado até se tornar apenas um borrão daquilo que ele poderia ser.

A ideia de um Campeão dos Magos que se corrompeu no passado e que se torna uma ameaça para o presente por causa de sua visão distorcida de Justiça e poder é totalmente reduzida a alguém de bom coração que só é violento por ser incompreendido e provocado a todo momento. Em uma trama em que todo mundo age de forma burra, a destruição causada por Teth-Adam é até compreensível.

O maior exemplo do quanto o roteiro de Adão Negro é banal é que ele é exatamente a mesma coisa de O Samaritano, filme que Sylvester Stallone lançou há pouco tempo no Prime Video. Os mesmos dilemas, a mesma reviravolta e a mesma mensagem motivacional do fim: trata-se da mesma história. Aliás, até mesmo a criança irritante se repete por aqui com o menino do skate, que é uma das coisas mais chatas de todo o longa.

Ok, ninguém esperava ver um filme de gibi que fosse original e inventivo, mas também não é pedir demais que uma produção do tamanho de Adão Negro — e com toda a expectativa e o peso em cima dela — fosse um pouco melhor do que algo lançado direto para streaming. Pois é esse o nível de pobreza.

E parte disso está nessa tentativa de encaixar o personagem na persona de The Rock ao invés do contrário — como era de se esperar de um ator. Assim, temos esse protagonista que se mostra a todo momento durão, implacável e que faz o que precisa ser feito, mas que o roteiro não tem a coragem de colocá-lo como um possível vilão. Afinal, um astro como ele não faria esse tipo de coisa, certo?

Embora os personagens repitam várias vezes que heróis não matam e que Teth-Adam está errado por agir de forma mais brutal, a verdade é que nada do que ele faz é realmente condenável ou comprometedor — ao menos não aos olhos do roteiro. Em nenhum momento ele ultrapassa a linha que distingue heróis de vilões e que faz o público questionar se está torcendo para o personagem certo. Assim, toda essa discussão se torna vazia e boba.

Isso fica ainda mais evidente quando a Sociedade da Justiça entra em cena. Em tese, o grupo deveria representar essa visão mais clássica do herói para se opor a Adão Negro, até numa tentativa de trazê-lo para a luz ao invés de deixá-lo sucumbir à escuridão. E eis que o grupo chega para contê-lo dizendo literalmente “Ajoelhe-se ou morra”.

Isso é uma pequena amostra do quanto o roteiro de Adão Negro é pobre e até mesmo infantil. Ele tenta se cobrir de uma visão quase adolescente de que uma história séria e adulta é aquela repleta de violência, frases de efeito e piadinhas irônicas — e, não coincidentemente, The Rock é uma metralhadora de tudo isso.

O que diabos é a Sociedade da Justiça

Para não dizer que o longa é uma tragédia do começo ao fim, a Sociedade da Justiça é realmente boa. Quer dizer, parte dela.

Aldis Hodge vive um Gavião Negro incrível, que rouba a cena sempre que aparece. Embora a repetição de algumas situações fiquem um pouco cansativas em alguns momentos, ele desempenha muito bem esse papel de líder da equipe e as suas interações com o Senhor Destino (Pierce Brosnan) são muito boas. Você compra que eles são velhos companheiros e a química entre eles funciona muito bem.

O próprio velho 007 está muito bem como esse senhor das artes místicas. Mais do que ser um Doutor Estranho com um balde na cabeça, ele consegue imprimir presença na tela, ainda que passe a maior parte do filme querendo fugir do conflito. Juntos, os dois são a melhor coisa de Adão Negro com uma certa folga.

Por outro lado, o restante da equipe é completamente descartável. E não apenas porque não faz o menor sentido uma missão desse nível convocar dois adolescentes sem experiência que não fazem parte do time, mas porque Esmaga-Átomo (Noah Centineo) e Ciclone (Quintessa Swindell) são completamente desnecessários para a trama. Se esses personagens não existissem no filme, nada mudaria.

A garota é apresentada como alguém muito inteligente, só que em nenhum momento isso é exigido na história. Tudo o que ela faz é gerar uns efeitos bonitos na tela e garantir alguns momentos em câmera lenta para garantir que você veja e ache aquilo legal. Já o rapaz tenta ser o alívio cômico, mas nenhuma das piadas que ele tenta emplacar rende mais do que um riso constrangido e amarelo.

Vale a pena assistir a Adão Negro?

Eu não tenho dúvidas de que Adão Negro vai ser um sucesso — principalmente entre o pessoal que ainda reverencia Batman vs. Superman: A Origem da Justiça e a Liga da Justiça de Zack Snyder. Assim como esses filmes, o novo longa da DCEU mostra que não só não entende os personagens com que está trabalhando como aposta apenas e unicamente em visuais incríveis para maquiar uma história medíocre.

É claro que há grandes momentos de encher os olhos. Ao longo de duas horas de película, boa parte delas é dedicada a muita explosão e destruição em sequências que são de tirar o fôlego — mesmo com um uso exagerado de câmera lenta — e que mostram que Teth-Adam é mesmo uma força imparável. Só que, no fim, elas não fazem a história avançar porque simplesmente mal há uma sendo contada. No máximo, um apanhado de clichês e algumas esquetes bobas, como a cena do duelo de pistoleiros.

No fim das contas, Adão Negro parece ter sido lançado há uma década, quando essa fórmula dos filmes de herói ainda era novidade, mas que chega aos cinemas em um momento em que estamos cada vez mais questionando essa mesma estrutura. Nem mesmo a ideia do anti-herói surpreende, sendo muito melhor executada em outros lugares, como em The Boys, por exemplo.

Com tanta explosão e destruição, é fácil comprar a ideia que The Rock tanto vendeu, de que a escala de poder dentro da DC foi alterada. Só que, ao mesmo tempo, fica claro que certas coisas não mudam na Warner, como a incapacidade de entender o que torna seus personagens interessantes e que certas histórias não dependem de um humor forçado ou de explosões ininterruptas. Na verdade, a gente só quer um bom roteiro. E, nesse ponto, Adão Negro é tão fraco quanto um Homem-Formiga.

Adão Negro está em cartaz nos cinemas de todo o Brasil; compre seu ingresso na Ingresso.com.