Dentes mais antigos do mundo são encontrados em fóssil de peixe na China

Por Augusto Dala Costa | Editado por Luciana Zaramela | 29 de Setembro de 2022 às 19h30

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Cientistas encontraram os fósseis de peixes com mandíbula mais antigos do mundo em sítios paleontológicos na China, datando entre 436 milhões e 439 milhões de anos atrás, no início do período Siluriano. A descoberta, impressionante por si só, tem ainda mais um aspecto curioso: ela só foi possível por conta do kung-fu.

Os sítios fósseis são, na verdade, novos, nas províncias de Guizhou e Chongqing, este último sendo encontrado em 2019. Na ocasião, 3 jovens paleontólogos estavam fazendo piadas uns com os outros, quando um deles levou um golpe de kung-fu de brincadeira e acabou caindo no afloramento rochoso. As pedras que a queda jogou para longe revelaram um incrível fóssil logo embaixo. Um golpe de muita, muita sorte.

Mandíbulas e ossos

De cair o queixo, a descoberta revelou segredos dos primeiro vertebrados com mandíbulas, no caso, nossos ancestrais nadadores, os peixes. Atualmente, há duas grandes categorias de peixe no mundo: os condrictios, ou cartilagíneos, que abarcam os tubarões, raias e quimeras, com esqueletos feitos de cartilagem, e os osteíctios, ou peixes ósseos, cujo esqueleto é feito de ossos, como as trutas.

Ambos os tipos de peixe, agora, têm suas origens mais claras a partir dessa descoberta, que também inclui o mais antigo fóssil completo de tubarão já encontrado. Parecidos com tubarões, alguns deles são placodermos, uma classe extinta de nadadores encouraçados com placas ósseas protegendo a cabeça e o tronco, como um escudo.

Já outros eram acantódios, conhecidos como tubarões espinhados, outra classe extinta que representava outra ramificação da linha evolucionária que nos deu os tubarões atuais. Os placodermos estão entre os primeiros vertebrados com mandíbulas, e estudá-los nos informa melhor sobre as origens de partes do corpo humano, como corações e faces.

Para exemplificar: um dos fósseis mais comuns do sítio de Chongqing é o Xiushanosteus, um placodermo achatado de 3 cm de comprimento, cujo crânio tem pares de ossos que refletem os ossos das nossas cabeças. Os ossos parietais e frontais dos humanos vêm destes extintos nadadores. Eles são de 11 milhões de anos antes da descoberta fóssil anterior da espécie.

Já o fóssil completo encontrado e descrito pelos cientistas é o Shenacanthus, cujo corpo é semelhante ao de outros acantódios, mas com o diferencial de trazer uma couraça, como os placodermos. Isso sugere, entre outras coisas, que as duas classes de animal vinham de um ancestral comum muito parecido: o Shenancanthus, por exemplo, tem barbatanas muito características às dos tubarões, o tira dos placodermos e o coloca nos condrictios.

Primeiros dentes marinhos

Outro condrictio do sítio nos oferece um vislumbre dos dentes mais antigos de qualquer vertebrado, que é anterior a outros fósseis em pelo menos 14 milhões de anos: é o Qianodus. Seus dentes são arranjados em fileiras no formato de bobinas, chamadas "espirais" ou "verticilos". Tais estruturas são comuns na junção das mandíbulas de ancestrais dos tubarões e de alguns peixes osteíctios, como os Onychodus.

E as novidades trazidas pelos achados estão longe de acabar: um dos primeiros tubarões espinhados do mundo, chamado Fangjinshia, foi encontrado, e o fóssil foi datado para cerca de 436 milhões de anos atrás, muito antes de registros anteriores, como o do Climatius, de meros 30 milhões de anos, muito parecido com seu primo cartilaginoso. Tanto o Fangjinshia quanto o Qianodus tinham de 10 a 15 cm de comprimento, sendo os primeiros predadores com dentes afiados do mundo.

Lá vêm os braços

Por último, os fósseis nos dão uma dica de como os membros corporais surgiram em pares, em um peixe sem mandíbula chamado Tujiiaspis. Seus restos mostram como eram as barbatanas em par primitivas, antes de se separar em barbatana peitoral e pélvica, que dariam origem, mais à frente, aos braços e pernas.

Anteriormente, pensava-se que as barbatanas peitorais haviam surgido nos osteotracanos, e as pélvicas, nos placodermos. O novo fóssil sugere que ambas evoluíram em conjunto, vindo de dobras nas barbatanas que correm ao longo do corpo e terminam na barbatana da cauda.

É bom aguardar mais novidades vindas desses sítios paleontológicos sentado, pois os cientistas mal começaram a descrever as espécies encontradas e já estão tendo que redesenhar árvores evolucionárias e desenhar novos diagramas, já que a ramificação dos peixes vertebrados com mandíbulas foi levada bem para trás na história da evolução. Temos muitos anos pela frente no estudo dos nossos ancestrais nadadores graças ao mais novos sítios chineses.

Fonte: Nature 1, 2, 3, 4